Entrevista

09.06.2006
O Serviço Franciscano de Solidariedade

Frei Mário Luiz Tagliari
Frei Mário Luiz Tagliari coordena o Serviço Franciscano de Solidariedade - SEFRAS - há três anos. Nesse período, o SEFRAS desenvolveu cerca de 23 serviços e projetos voltados para a defesa e o exercício da cidadania, em todo o território da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, que abrange os Estados de São Paulo, Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro. Nesta entrevista, Frei Mário Tagliari fala do Projeto Franciscanos Pela Eliminação da Hanseníase, lançado em janeiro de 2006.
 
  


Conheça um pouco mais São Francisco de Assis, o servidor dos leprosos

São Francisco, no tempo de sua vida mundana, tapava o nariz só ao ver as cabanas dos leprosos, mesmo que elas estivessem a duas milhas de distância. Consta em seu próprio Testamento o seguinte depoimento: “Como estivesse ainda em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos”.

No entanto, por graça e força do Altíssimo, por esse tempo, ele começou a pensar nas coisas santas e úteis. Quando ainda vivia como secular, encontrou-se um dia com um leproso e, superando a si mesmo, aproximou-se e o beijou. A partir de então, foi ficando cada dia mais humilde, até conseguir vencer a si mesmo, por misericórdia do Redentor. Dizia ele: “O Senhor me conduziu para o meio deles e eu senti misericórdia com eles”.

Depois disso, o amante de toda humildade transferiu-se para um leprosário. Vivia com os leprosos, servindo a todos por amor de Deus. Lavava-lhes a podridão dos corpos e limpava até o pus de suas chagas. 

Ajudava também os outros pobres, mesmo quando ainda era secular, e seguia o espírito do mundo, estendendo sua mão misericordiosa para os que não tinham nada, mostrando compassivo afeto para com os aflitos.
(continua)

UniFae: Qual a relação da hanseníase com os franciscanos?

 
Frei Mário: Na história de vida de São Francisco, a figura do então chamado “leproso” é muito marcante. No momento em que Francisco faz o retrospecto de sua vida, entre os muitos acontecimentos que concorreram para direcioná-la, o fato culminante de sua conversão foi o encontro com os leprosos, simbolizado no abraço e no beijo a um leproso que ele encontra pelo caminho. É nesse momento que surge o novo, o humano, o tipicamente cristão e franciscano, um novo e comovente modo de ver, sentir e estar no mundo. Desde então, os frades franciscanos, que continuaram a obra de São Francisco, têm procurado atualizar o “abraço ao leproso”. Hoje, ele acontece quando se trabalha com qualquer tipo de excluído, mas de modo especial, com aquele que, em pleno século XXI, apesar de todo avanço da ciência, ainda é vítima da hanseníase, a antiga lepra. Por isso, participar de um trabalho de eliminação da hanseníase, junto com entidades e órgãos públicos, é um compromisso que faz parte da espiritualidade franciscana. Ser franciscano exige lutar pelos direitos do hanseniano e pela eliminação da hanseníase.

UniFae: Por que os franciscanos aderiram ao movimento pela Eliminação da Hanseníase?
 
Frei Mário: Os franciscanos da Província da Imaculada Conceição do Brasil já têm uma presença significativa em três Sanatórios para Hansenianos, que atendem a 13.000 portadores da doença, nos Estados do Paraná (Colônia São Roque – Piraquara), São Paulo (Colônia de Pirapitingui/Itu) e Rio de Janeiro (Sanatório de Venda das Pedras/Itaboraí), com atendimento espiritual e social, promoção humana, atividades educacionais e culturais, aquisição de medicamentos e equipamentos, ambulância, UTI e manutenção. No entanto, como nos lembrou nosso Ministro Provincial Frei Augusto Koening, no lançamento do Projeto em janeiro, a luta pela eliminação da hanseníase não é propriedade  dos franciscanos, mas queremos somar nossas forças para colaborar com o Governo e com outras entidades, que já estão trabalhando nessa área há muito tempo. Como costumamos dizer, essa motivação já vem desde o tempo de São Francisco de Assis, no encontro que teve com o “leproso”, fato que o levou à superação do seu próprio preconceito em relação à doença. Para se chegar à eliminação da doença, é preciso somar forças, informar a população, vencer o preconceito, sugerir o autodiagnóstico e encaminhar as pessoas ao tratamento. Isso é papel de todos!
 
 

Houve um dia em que, contra o seu costume, porque era muito bem educado, tratou mal um pobre que lhe pedia esmola. Entretanto, muito arrependido, começou a dizer consigo mesmo que era grande ofensa e vergonha negar a quem estava pedindo o que quisesse, em nome de tão grande Rei.

Depois disso, prometeu a si mesmo que jamais negaria a quem lhe pedisse, em nome de Deus, o que estivesse ao seu alcance. Com muita diligência, tornou-se um cumpridor, bem antes de ser um mestre do Evangelho: “Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te pedir emprestado”.

Adaptação feita com base em informações advindas de Tomás de Celano, biógrafo de Francisco de Assis

UniFae: Em que consiste o Projeto Franciscanos pela Eliminação da Hanseníase? Quais são as ações do projeto?

Frei Mário: É um projeto coordenado pelo SEFRAS Provincial e executado por mais de 60 fraternidades franciscanas no território onde a Província se faz presente. No último domingo de janeiro - considerado o “Dia de combate à hanseníase” - preparamos um folheto informativo para conscientização da população, dizendo o que é a doença, seus sintomas, contágio e tratamento. Esse foi o lançamento do Projeto, cujo objetivo é o de colaborar para a eliminação da Hanseníase no Brasil, atuando na conscientização da população e na cobrança do Poder Público. Diversas ações estão previstas, desde a pesquisa até a promoção de eventos, visitas, encontros, etc. Num segundo momento, pretendemos estabelecer contatos, tendo em vista parcerias com entidades, movimentos e organizações que atuam no campo da Hanseníase, sobretudo, com a Família Franciscana do Brasil.
 
UniFae: Quais são os índices da epidemiologia do agravo no Brasil?
 
Frei Mário: Analisando o contexto mundial, segundo dados da Campanha do Estado de São Paulo de Combate à Hanseníase, realizada em 2005, ainda temos registrados cerca de 500.000 doentes de hanseníase em todo o mundo, distribuídos pela África, Ásia, América do Sul e Pacífico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, atualmente, a doença acometa cerca de 1 milhão de pessoas e que 2 a 3 milhões estejam permanentemente incapacitadas pela doença. O Brasil é o único país da América Latina onde a doença ainda não foi eliminada. O Brasil é o segundo país no mundo em número total de casos de hanseníase, com 49.384 novos casos diagnosticados em 2004 (sendo 3 mil com menos de 14 anos). Em primeiro lugar está a Índia, com 260 mil novos doentes anuais. Nosso país detém 85% (79.908, no início de 2004) do total dos casos registrados nas Américas. A descoberta de casos novos no Brasil vem mantendo-se em tendência ascendente há dez anos. A resolução da 44ª Assembléia Mundial (1991) definiu a Eliminação da Hanseníase como sendo a existência de menos de 1 caso para 10.000 habitantes. Essa meta programática deveria ter sido alcançada pelos países endêmicos até 2000, foi adiada para 2005 e novamente não foi alcançada. A OMS fornece medicamento gratuito até 2010, depois disso não mais...
 
UniFae: Quem são os parceiros dos franciscanos neste projeto?
 
Frei Mário: Em alguns locais onde nosso Projeto está caminhando a passos mais largos, as principais instituições parceiras são as Secretarias Estaduais de Saúde, especificamente no seu Programa de Combate à Hanseníase. É o caso do Paraná, do Espírito Santo e, mais recentemente, de São Paulo. No entanto, existe já uma rede muito grande no Brasil que é a chamada FFB - Família Franciscana do Brasil – que congrega os frades, as irmãs e os leigos que seguem a espiritualidade de São Francisco. Entre os membros dessa rede, mais do que “parceria”, podemos falar mesmo de uma “aliança” em torno da eliminação da hanseníase. Como dissemos antes, o segundo passo do Projeto será em nível nacional, no qual os franciscanos e as franciscanas do Brasil, cada congregação ou província em seu local, promoverão a conscientização da população, a orientação e o encaminhamento aos órgãos públicos municipais ou estaduais de atendimento, sendo agentes multiplicadores dessa campanha. Esse é nosso propósito!
 

Participe do Seminário pela eliminação da hanseníase!

O Núcleo de Ação Comunitária da  UniFAE, juntamente com o Serviço de Solidariedade e Centro Social Franciscano, por meio deste seminário, objetiva a construção de um espírito humanista cristão, nas relações entre os vários grupos sociais.

A UniFAE, como instituição acadêmica e orientada pelos seus fundamentos, promove o seminário para a comunidade interna e externa, como forma de conscientização e colaboração com o projeto da Província Franciscana, pela eliminação da hanseníase no Brasil.

Como alerta, um ciclo de palestras será ministrado para diversas classes sociais,  para que se conheçam tanto os meios de contágio quanto os de tratamento.

Objetivo

Apresentar as formas de contágio e transmissão da doença, para que a  população não apenas tome as devidas precauções, mas também passe a outras pessoas o conhecimento adquirido.

Palestras

22 de junho

· Frei Augusto Koenig, OFM – Ministro Provincial da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil – SEFRAS - Abertura.

· Frei Rui Guido Depiné, OFM – 30 anos de convivência com hanseníase.

· Dra Noely Vigo (Manhã) / Dra. Ewalda V. R. Stalhke (Noite) - Diagnóstico, clínica e tratamento da hanseníase.

· Assistente Social e Sanitarista Nivera Stremel – Secretaria Estadual de Saúde/ Programa de eliminação da Hanseníase - Epidemiologia da Hanseníase.

· Usuária Francisca Barros da Silva – Vivência e Cura da Hanseníase.
· Coordenador da mesa - Frei Jaime Spengler, OFM .

Horários e locais


· Das 09h às 11h: Anfiteatro do Prédio Centro (Rua 24 de Maio, 135, 7º andar)

· Das 19h às 22h30: Teatro Bom Jesus (Rua 24 de Maio, 135, térreo)