Sei que Nada Sei
Autor: Osmar Ponchirolli*
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| Osmar Ponchirolli | O não-saber socrático. Há muitas interpretações para a asserção de Sócrates: "Só sei que nada sei". As controvérsias com os cosmólogos e com os sofistas não constituem um desprezo da Filosofia. Representam uma oposição a continuar filosofando, no âmbito da satisfação e da suficiência. A sabedoria resume-se, antes de tudo, numa limitação. Sócrates descobre-se por boca do oráculo de Delfos, o mais sábio de todos os homens, justamente porque é o único que sabe que não sabe nada.
"Sou mais sábio do que esse homem, pois, pelo que me parece, nenhum de nós dois sabe coisa alguma de bom e de belo, mas esse crê saber e não sabe, eu não sei, porém, não creio mesmo saber. E parece que por essa pequenez sou mais sábio, pois não creio saber o que não sei" (Platão, Apologia V-VI).
“Sei que nada sei”. A diferença que Sócrates coloca entre ele e os outros é, precisamente, esta: que os outros não sabem que não sabem, enquanto ele sabe que não sabe.
Tantos equívocos têm sido cometidos em relação a esse "não saber" socrático, a ponto de nele se ver o início do ceticismo. Na realidade, ele pretendia ser uma afirmação de ruptura:
a) em relação ao saber dos naturalistas, que se havia revelado vão;
b) em relação ao saber dos sofistas, que logo se havia revelado mera presunção;
c) em relação ao saber dos políticos e dos cultores das várias artes, que quase sempre se revelava inconsistente e acrítico.
O significado da afirmação do não-saber socrático pode ser calibrado mais exatamente se, além de relacioná-lo com o saber dos homens, o relacionarmos também com o saber de Deus. Para Sócrates, Deus é onisciente, estendendo-se o seu conhecimento do Universo ao homem, sem qualquer espécie de restrição. Ora, é precisamente quando comparado com a estatura desse saber divino que o saber humano mostra-se em toda a sua fragilidade e pequenez.
Nessa ótica, não apenas aquele saber ilusório de que falamos, mas também a própria sabedoria humana socrática revela-se um não-saber. De resto, na Apologia, interpretando a sentença do oráculo de Delfos, segundo a qual ninguém era mais sábio do que Sócrates, o próprio Sócrates explicita esse conceito:
"Unicamente Deus é sábio. E é isso o que ele quer significar em seu oráculo: que a sabedoria do homem pouco ou nada vale. Considerando Sócrates como Sábio, creio eu, não quer se referir propriamente a mim, Sócrates, mas somente usar o meu nome como um exemplo. É quase como que se houvesse querido dizer assim:: 'Homens, é sapientíssimo entre vós aquele que, como Sócrates, tiver reconhecido que, na verdade, a sua sabedoria não tem valor."
A contraposição entre "saber divino" e "saber humano" era uma das antíteses muito caras a toda a sabedoria proveniente da Grécia - que, portanto, Sócrates volta a reafirmar.
Deve-se, ainda, assinalar o poderoso efeito irônico de benéfico abalo que o princípio do não-saber provocava nas relações com o interlocutor: acarretava o atrito do qual brotava a centelha do diálogo.
Outros dizem que esta afirmação "só sei que nada sei" está longe de ser um ato de modéstia, mesmo que o possa parecer aos mais desprevenidos. Ele quer afirmar que em seu redor não há nada que lhe permita saber: nem leis, nem hábitos sociais, nem crenças religiosas, nem princípios morais, nem doutrinas de filósofos.
Isso porque o saber é conhecimento sólido, não determinável, irrefutável - o "saber" é, portanto, a verdade - e, inversamente, todos esses conhecimentos e regras, uma vez encaminhados, revelam-se ou gratuitos (isto é, afirmados ou praticados, sem que se saiba verdadeiramente porque são afirmados ou praticados), |