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05.12.2016

Artigo: Uma luz para o caos


Confira a opinião do professor da FAE André Hayashi
Confira a opinião do professor da FAE André Hayashi
Você acorda cedo, dá um abraço carinhoso em cada um de seus familiares. Todos se espreguiçam, se vestem cantarolando e juntos tomam um café da manhã maravilhoso, com muita paz, tranquilidade, diálogo e sorriso no rosto. Você entra no carro e agradece pela oportunidade de viver mais um dia fazendo o que mais gosta, sem negar tempo para ajudar aqueles que precisam.

É só um sonho. Você acorda de verdade e sua mente já trabalha com pressa, igual a uma estação de rádio interna que fala e emite ruídos sem parar, criando novas teorias ou reforçando antigas crenças. Não há tempo para respiração e abraços, você “precisa” olhar o WhatsApp, o Facebook, o número de curtidas no Instagram, ligar o rádio para saber das notícias (mais ruídos) da economia e da política, ligar a TV por questão de costume e ler o jornal, afinal pode ter faltado ainda alguma informação “necessária para sua sobrevivência”: PIB em queda, inflação medida pelo IPCA ainda acima da meta, seu salário já não compra tudo o que comprava antes, juros cobrados pelo cartão de crédito batem 400% ao ano em média, quem tem dinheiro sobrando prefere investir em títulos públicos e receber taxa Selic de 14% ao ano a abrir um novo negócio, índices de inadimplência e endividamento crescentes, relação dívida/PIB do Brasil em alta e em torno de 70%, avaliação do Brasil (risco-país medido pelas agências de rating internacional) em baixa, tentativas de abafar a operação Lava Jato, corrupção persistente. Só faltava o Trump ser eleito...

Segundo Sogyal Rinpoche, em seu “O livro tibetano do viver e do morrer”, nada é mais constante que a impermanência e as coisas podem piorar ainda mais. Houve uma época no Brasil em que os juros estavam muito mais altos, com a taxa Selic rondando os 40% ao ano. A quebradeira era geral, pois, com aquele nível de taxa de juros, poucas empresas e pessoas físicas conseguiam manter as contas no azul. Lembro também que nesta época os imóveis estavam com preços em queda, afinal é muito mais inteligente investir em títulos públicos pós-fixados (ou fundos DI, que compram estes títulos por você e rendem a taxa Selic do momento) do que comprar um imóvel para receber aluguel com renda bem mais baixa que 40% ao ano.

Se eu não possuísse educação financeira naquele tempo, teria sobrevalorizado as notícias ruins e entrado em pânico e provavelmente não teria tido a coragem de investir em títulos públicos emitidos por um país quebrado, com o presidente Itamar Franco pedindo socorro ao FMI. Mas não, como eu estudava por conta sobre investimentos (mesmo não trabalhando no mercado financeiro na época) e sabia que títulos públicos possuem baixo risco (risco soberano), nunca tive medo de investir em fundos DI e aproveitei os juros altos e a queda nos imóveis para comprar uma casa para morar, à vista! Parece loucura, mas é possível obter ganhos em momentos de crise.

Entretanto, impermanência não significa que as coisas só tendem a piorar. Você pode ser surpreendido com uma melhora inesperada. É engraçado, mas muitas vezes é necessário encararmos a escuridão para enxergarmos a luz. Vivemos um momento político único, em que temos a oportunidade de presenciar uma grande limpeza, com consequente adoção de importantes regras de compliance, trazendo nova confiança para o país e puxando o valor de nossa moeda para cima. Veja o exemplo daquelas poucas pessoas (mas com muito dinheiro e boa educação financeira) que investiram na Bovespa no ápice da pior crise mundial, em meados de 2008, e obtiveram ganhos de aproximadamente 100% em 2009. Já virou clichê: “É nas crises que surgem as grandes oportunidades”. É fácil falar depois que já aconteceu, o difícil é fazer antes de ocorrer. Poucos enxergam os sinais por trás dos ruídos, principalmente em momentos de crise aguda.

Assim como qualquer outra atividade que precisa gerar lucro, é natural que a mídia opte pela veiculação de notícias com maior impacto. Se você não se tornar consciente disso, sua mente será incessantemente bombardeada por informações com maior carga de negatividade do que de positividade. Consequentemente, seu ego exigirá proteção e criará crenças cada vez mais fortes de que não há outra solução senão trabalhar mais e mais para compensar o medo e a incerteza. Com a ajuda das propagandas e das mídias sociais, “concluímos” que é necessário ter para ser e que “precisamos” consumir cada vez mais para sermos aceitos pela sociedade. Assim, forma-se uma rede que estimula o endividamento, uma estrutura de consumo pela culpa, que costumo chamar de “Matrix”, em alusão ao filme com mesmo nome. A Matrix é uma rede formada por grandes empresas e instituições financeiras, que financiam meios de comunicação, propagandas e campanhas eleitorais, de modo que você tem cada vez menos tempo para a família e precisa trabalhar cada vez mais para consumir e aparecer. Se precisar de ajuda, basta tomar um empréstimo “salvador”. O banco agradece.

Segundo dados da FIEP-PR, aproximadamente 70% da população paranaense está endividada, de tal forma que sua renda não é suficiente para cobrir gastos familiares. Dos 30% restantes, boa parte investe as sobras na caderneta de poupança, cujo rendimento é menor que a inflação atual. Poucos sabem o que é um título público e há fortes interesses para que as pessoas continuem não sabendo.

Neste contexto, é fundamental, é urgente que as pessoas adquiram educação financeira de qualidade, para que possam ter contato com a motivação e conhecimentos necessários para a saída definitiva do ciclo de endividamento e entrada na roda da fortuna, investindo em ativos que de fato produzirão riqueza no longo prazo.

Em nossos cursos de pós-graduação e MBA em Finanças e Mercado Financeiro da FAE, damos forte ênfase ao aprender fazendo: os alunos aprendem na prática a produzir, com disciplina e consistência, um excelente montante para sua aposentadoria, gerindo e acumulando mensalmente ativos financeiros que produzem ganhos tanto em períodos de bonança (ações, títulos públicos prefixados ou opções de compra de ações), como em períodos de turbulência (títulos públicos pós-fixados, debêntures de primeira linha pós-fixados, ações de empresas exportadoras que se valorizam com a alta do dólar e outros derivativos financeiros).

Sabemos, entretanto, que só isto não é o suficiente e disponibilizamos também disciplinas de várias outras áreas, para que o aluno adquira o preparo psicológico necessário para ser mais humano e menos preocupado com o ato de consumir em demasia. Consumindo menos, sobra dinheiro para investir, aumenta sua tranquilidade sobre o futuro e sobra mais tempo para curtir sua família. Sua vida agradece.

Enfim, é possível sim ter equilíbrio emocional e financeiro, mesmo neste mundo caótico em que vivemos. Usando o termo criado por Nassim Taleb em seu livro “Antifrágil, coisas que se beneficiam com o caos”, eu afirmo que você pode se tornar antifrágil. Basta querer. Acorde!

André Hayashi é mestre e coordenador dos cursos de pós-graduação em Finanças e em Gestão em Mercado Financeiro e do MBA em Finanças e Mercado de Capitais da FAE.


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