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24.04.2017

Brasil é “mercado imenso” para arquitetos e urbanistas


Confira entrevista com o conceituado arquiteto Fábio Domingos Batista, que palestrou para alunos da FAE
Confira entrevista com o conceituado arquiteto Fábio Domingos Batista, que palestrou para alunos da FAE
“No Brasil, há um mercado imenso, não somente para arquitetura, mas para o desenho urbano e o urbanismo”. A afirmação é do arquiteto e mestre em Projeto e Tecnologia do Ambiente Construído, Fábio Domingos Batista, que ministrou a primeira palestra do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAE, neste primeiro semestre. O profissional baseia sua opinião em uma recente pesquisa do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, finalizada em 2015. Segundo o levantamento, apenas 7% dos brasileiros já contrataram um arquiteto e 42% constroem apenas com mestres de obras e não utilizam serviços de arquitetos ou engenheiros.

Batista é sócio na Grifo Arquitetura e tem ampla experiência em projeto arquitetônico e desenho urbano, além de ser premiado em diversos concursos de arquitetura e autor de livros que tratam sobre temas de arquitetura e cultura.

Devido a essa interessante trajetória profissional, a coordenadora do curso da FAE, Adriane Cordoni Savi, lançou o convite ao também especialista em Estética e Filosofia das Artes para compartilhar conhecimentos com os estudantes da Instituição. “Fábio é um profissional muito respeitado no mercado paranaense e nacional e possui muito conteúdo relevante, por isso ficamos gratos por sua presença na aula inaugural do curso de Arquitetura e Urbanismo”, conta.

Para saber mais sobre como foi a palestra do arquiteto Fábio Domingos Batista e a avaliação dele sobre o atual mercado de trabalho, confira, a seguir, a entrevista concedida com exclusividade para a FAE:

FAE: Você recordou com os alunos diferentes épocas de Curitiba a partir do ponto de vista da sua arquitetura. Na sua opinião, quais foram as principais novidades desta área que provocaram (ou foram provocadas) por mudanças sociais na cidade?

Fábio Domingos Batista: A arquitetura é fruto de questões socioeconômicas, tecnológicas e também políticas. A cidade se materializa de forma complexa, mas podemos pontuar alguns períodos de crescimento urbano e de produção de uma arquitetura mais significativa relacionadas a ciclos econômicos, avanços tecnológicos e questões políticas.

Como exemplo de alteração na paisagem por questões políticas, temos a emancipação do Paraná em 1853. Nessa época se tornou necessária a configuração de uma capital pelo então presidente da Província do Paraná Zacarias de Góes Vasconcelos.

Outro exemplo foi o incentivo à imigração, que teve o impulso inicial devido à emancipação política do estado. O imigrante trouxe tecnologia construtiva, fomentou um início de industrialização e transformou a economia e o modo de construir na cidade.

Questões tecnológicas também são importantes. No final do século XIX, a industrialização trouxe olarias, serrarias e fundições, transformando o modo de construir em Curitiba. No final da década de 1920, o concreto armado possibilitou o início da verticalização.

Ciclos econômicos como a erva-mate, o café e a industrialização também influenciaram significativamente a produção da paisagem urbana. Mas temos também as referências arquitetônicas, que influenciam muito a materialização da arquitetura. Como comentado anteriormente, é uma questão complexa que pode ser analisada por meio de diversos recortes.

FAE: Nesse contexto, Curitiba caminha para qual tipo de arquitetura? É possível apontar uma ou mais tendências e os fatores que impulsionam este movimento?

Fábio Domingos Batista: Há muitos caminhos a serem apontados e não há apenas uma tendência. Atualmente, questões como responsabilidade ambiental, identidade local, qualidade de vida relacionados a vivências mais humanas do espaço urbano e da arquitetura são defendidas por alguns grupos de arquitetos.

Mas temos em oposição a isso a produção massificada do espaço urbano, por meio da construção de grandes edifícios que são repetidos incessantemente em diversas cidades do Brasil e do mundo. Essa produção é fomentada basicamente pelo mercado imobiliário e por grandes incorporadoras se opondo, na maioria das vezes, ao conceito de cidade humana e sustentável.

Creio que as questões ambientais e a produção de um desenho mais humano serão, em um futuro próximo, os condicionantes fundamentais para uma boa produção arquitetônica.

FAE: Você considera que o mercado nacional de arquitetura e urbanismo pode crescer ainda mais? Como os novos profissionais podem investir em suas carreiras para serem destaque?

Fábio Domingos Batista: Eu acredito que existe um grande mercado para a arquitetura nacional. O Brasil produz bons arquitetos e sua arquitetura tem muito reconhecimento internacional, mas a arquitetura nacional ainda não abrange a maioria da população. Uma pesquisa do Conselho de Arquitetura realizada em 2015 aponta que apenas 7% dos brasileiros já contrataram um arquiteto e 42% constroem apenas com mestres de obras e não utilizam serviços de arquitetos ou engenheiros. Ou seja, temos no Brasil um mercado imenso, não somente para a arquitetura, mas para o desenho urbano e o urbanismo.

Creio que a principal barreira seja cultural, mas essa realidade está mudando, aos poucos o brasileiro está reconhecendo o papel do arquiteto tanto na produção de obras quanto na produção do espaço urbano.

Creio, ainda, que o maior investimento é na formação profissional: ler muito sobre o tema, ser crítico, se interessar pelo que acontece no seu bairro, na sua cidade, no país e no mundo.

FAE: Há um ou mais nichos inovadores nestas áreas que se apresentam como oportunidades de exploração de mercado para novos profissionais?

Fábio Domingos Batista: O mercado é imenso. Um bom profissional deve ser um generalista com algumas especialidades, mas é imprescindível ser generalista, ou seja, entender a arquitetura, o urbanismo e o desenho urbano de forma ampla e complexa para que possa desenvolver a sensibilidade para essas diversas escalas do projeto. O bom profissional deve entender a cidade, o bairro e o entorno do edifício a ser projetado, pois tudo está relacionado e uma boa obra sempre possui uma escala adequada.

Durante a sua formação, o estudante deve experimentar as diversas possibilidades da profissão e desenvolver sensibilidade espacial. Um bom arquiteto é sensível, tanto às escalas do projeto quanto às necessidades humanas. A especialização geralmente vem com o amadurecimento profissional, muitas vezes devido às necessidades que um ou outro projeto exige.

Existem diversos nichos inovadores que podem ser explorados, como a produção de imagens ou a tecnologia oferecida por softwares, ou o acesso às inovações construtivas, mas essas escolhas devem ser feitas ao longo da formação, depois de vivenciar as diversas possibilidades que a profissão oferece.

Como exemplo, posso citar alguns colegas que tiveram a mesma formação que a minha e que hoje são profissionais conceituados. Um colega possui uma maquetaria e produz maquete para diversas construtoras do Brasil. Outro trabalha com urbanismo e planos diretores; outro ainda tem uma empresa que produz imagens e maquetes eletrônicas. Tenho amigos que trabalham com regularização fundiária, com preservação do patrimônio cultural, com restauro de edificações históricas e paisagismo. Alguns constroem e outros trabalham com interiores.

Como afirmei, há diversas escalas em que é necessária a atuação do arquiteto e o mercado é imenso, há muitas possibilidades. A questão é investir na formação, se dedicar à arquitetura e sempre que possível viajar, ler muito e ver o que está sendo produzido no Brasil e no mundo.




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